28 de fevereiro de 2016

Bandas independentes e o futuro incerto do streaming e das redes sociais

Neste texto eu faço uma pequena avaliação da situação atual dos serviços de streaming de música e da divulgação de música em redes sociais. Será que ainda vale a pena investir nesses meios?


por Mário Megatallica


O FUTURO INCERTO DO STREAMING

Desde que eu reativei meu pequeno estúdio musical doméstico há quatro anos, me acostumei a ter que fazer tudo sozinho. Compor músicas, convidar amigos para colaborar no arranjo, gravar, mixar, finalizar o material, gravar vídeos, postar tudo na internet no maior número possível de lugares, ativar a venda em lojas virtuais, avisar às pessoas sobre os lançamentos, postar diariamente sobre as minhas novidades, etc... Enfim, não é uma rotina fácil. Isso tudo demanda muito tempo, dinheiro e dedicação.


Assim que lancei na internet as minhas primeiras músicas, percebi que seria impossível trabalhar sem duas ferramentas: serviços de streaming e redes sociais. Os serviços de streaming hospedam seus arquivos de música e video - sem eles fica quase inviável tentar reproduzir seu som via internet; já as redes sociais são os locais onde você mostrará seu som para o maior número possível de pessoas. E desde que eu resolvi retomar o hábito de publicar minhas músicas na internet, percebi que o local de referência para o streaming de música (tanto áudio puro quanto vídeo) continua sendo o Youtube. Certo, eu já fazia isso no Myspace, mas pense bem: o que é o Myspace hoje em dia? Sim, ele ainda existe! Porém, é irrelevante... foi maltratado por administrações catastróficas e perdeu espaço para o Youtube. E não tem jeito: desde 2005 o mundo inteiro se acostumou a procurar e ouvir música no Youtube; não tem como mudar esse hábito. Agora, imagine você, que é músico e/ou tem uma banda independente, ficar sabendo o seguinte: YouTube to block indie labels who don't sign up to new music service , ou em bom português, "o Youtube bloqueará selos independentes que não assinarem seu novo serviço de música"... e agora, o que fazer?? Sim, o Google, dono do Youtube, vai separar todo o conteúdo musical do site e o disponibilizará num novo serviço chamado Youtube Music Pass - e quem não aceitar os termos de adesão ao novo serviço não poderá ser ouvido. Simples assim. 


Sim, o Google quer usar o Youtube para entrar de forma mais forte no mercado de streaming pago de música, que hoje é dominado pelo Spotify e que também é disputado por iTunes e Apple Music, Groove Music (Microsoft), Deezer, Tidal (do rapper Jay - Z) e outros serviços menos conhecidos. Acontece que o modelo de negócio adotado pelo Spotify é alvo de críticas severas de outras empresas por oferecer audição gratuita do acervo musical cedido por grandes gravadoras e bandas independentes; aliás, o Spotify é um dos poucos serviços de streaming de música que oferece isso, sendo que a grande maioria simplesmente exige pagamento para o cliente ouvir qualquer música completa. Estar isolado numa disputa contra empresas do porte de Google, Apple e Microsoft não deve ser fácil... Eu uso preferencialmente o Soundcloud, porém, perdi a minha tranquilidade quando a empresa confirmou uma "parceria" com a Universal Music Group (UMG), gravadora que possui alguns dos artistas mais escutados em nível mundial. O cenário atual da disputa por esse mercado está muito bem descrito neste artigo: 'The Life of Pablo' e a morte do streaming de música como conhecemos; eu recomendo fortemente a leitura desse texto para que você, músico/banda independente, possa conhecer o rumo que este tipo de serviço deve tomar no futuro. Se já está muito difícil ganhar algum dinheiro com o streaming, prepare-se pois a situação tende a piorar um pouco nos próximos anos pois o número de pessoas dispostas a pagar para ouvir música não deve crescer tão rapidamente quanto se espera para manter o negócio funcionando, assim como o valor repassado para os artistas deve manter-se como está ou até mesmo diminuir.

O FUTURO INCERTO DAS REDES SOCIAIS

Além da questão do streaming, outra questão que tem me deixado preocupado é o uso de redes sociais para ações de marketing. Lembro-me perfeitamente que em 2009 o cenário das redes sociais era bem próspero e favorável aos artistas independentes... o Youtube já estava consagrado, o Myspace ainda era utilizado por muitas pessoas, o Orkut fazia história no Brasil, o Facebook surgia como com potência no mundo todo, o Google estava preparando o lançamento do Google Plus, o Twitter crescia cada vez mais, o Flickr ainda apresentava uma quantidade boa de visitas e usuários ativos, O Tumblr e o Pinterest surgiam como grandes novidades... E o que sobrou disso tudo hoje, em 2016? Sobrou uma internet devastada pelo Facebook e uma dúzia de serviços baseados em telefones celulares, entre eles Instagram, Snapchat, Tinder, Whatsapp, Vine, Periscope, e mais alguns que repetem regionalmente o sucesso que estes representam em escala mundial. Há algum sobre música nesse grupo de destaque? Sim, o Spotify. Mas infelizmente ele está muito longe de ter o alcance que todos aqueles possuem atualmente; lembre-se que o Youtube ainda é uma referência no streaming de música.


E o que dizer do Twitter? Um belo serviço de assessoria de imprensa, bastante informativo, objetivo, com talento nato para a interatividade em tempo real - está em crise! Acredite se puder: o Twitter está passando por dificuldades. A rede que chegou a servir de exemplo de gestão para o Facebook agora pede socorro para continuar existindo. Ironicamente, o CEO do Facebook diz o que faria para salvar Twitter de crise - que situação! O Google, por sua vez, não tem feito nenhum esforço para salvar o G+ do abandono; resolveu desfazer a integração da sua rede social de todos os outros serviços da empresa, eliminando o pouco de visibilidade que a rede tinha. Vemos duas das três maiores redes sociais atuais passando dificuldades para ganhar usuários ativos - o que implica duas coisas: primeiro, que a visibilidade das suas postagens tende a diminuir dentro desses dois locais; segundo, que o Facebook é a única opção viável para marketing musical em rede. O Twitter pode reverter sua situação? Sim, porém, quem tem mais experiência com internet sabe que é bem mais provável que ele e outras redes sociais que passam por dificuldades acabem perdendo espaço para outras novidades do mesmo tipo.

O fato mais interessante, na minha opinião, quando avaliamos a eficácia das redes sociais na divulgação de música, é que atualmente elas concorrem com serviços que, em tese, não têm nada a ver com isso mas que incrivelmente funcionam como uma rede social. Sendo brasileiro, posso citar como exemplo de um caso desse tipo o serviço WhatsApp - o aplicativo de mensagens e Voip mais adorado no Brasil. Através dele eu posso criar grupos, enviar textos, fotos, videos e (pasmem!) até trechos de arquivos de áudio. Ou seja, através dos grupos, eu posso manter várias pessoas atualizadas com as minhas principais atividades utilizando todas as possibilidades de anexos que o serviço permite, sem me preocupar com mecanismos de restrição de visualização de postagens... Resultado: este aplicativo se tornou uma rede social bastante eficiente - e essencial - para os brasileiros. Nunca esquecerei o exemplo do cantor Pablo do Arrocha, que se tornou famoso no país todo após sua música "Homem Não Chora" ser compartilhada por milhões de pessoas através de vídeos engraçados que circulavam na velocidade da luz via WhatsApp, tornando-se conhecido no país todo sem a ajuda da mídia tradicional. Pense bem nisso colega: qualquer serviço que conecte as pessoas através de mensagens e permita o compartilhamento de fotos, vídeos e áudio tem grande potencial para funcionar como rede social. Acredito que, seguindo esta tendência, será mais eficaz manter um grupo oficial aberto de artista/banda num serviço de mensagem (Skype, Viber, Whatsapp, Line, Telegram, etc.) do que depender prioritariamente do Facebook para atingir as pessoas que se interessam pela sua música. Lembre-se da ação de marketing da cantora Madonna, que lançou seu último álbum de estúdio, com exclusividade, via Snapchat.

Vale a pena manter o investimento em marketing em redes sociais? Sim, o custo-benefício ainda é favorável ao artista, porém, o local desse investimento é que deve ser escolhido de forma mais criteriosa, já que algumas das redes sociais mais tradicionais passam por dificuldades por não contarem com um número significante de usuários ativos. Além disso, procure ampliar a sua compreensão sobre o conceito de "rede social", pois exemplos como o Whatsapp deixam claro que as redes de contato vão muito além do Facebook. E se você ainda centraliza todas as suas atividades em redes sociais e depende de serviços de streaming de música para hospedar e reproduzir sua música, tome cuidado! O cenário virtual está mudando de novo e merece bastante atenção por parte de músicos/produtores/bandas independentes pois, pelo que podemos observar atualmente, devemos estar caminhando para uma nova era de serviços pagos e de mudanças de hábitos e talvez seja a hora de você/sua banda criar um site próprio para não depender totalmente de redes sociais. Será que estamos preparados para todas essas mudanças?



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